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O esporte não pune o racismo

Entenda, a partir dos casos recentes, como o racismo estrutural tem afetado o  esporte nacional e internacional.

Com os últimos acontecimentos de saúde global, o esporte mundial parou, mas infelizmente, a última impressão que ele nos deixou não foi nada boa. Mesmo com a paralisação de todos eventos esportivos mundo afora, o ano de 2020 começou mostrando que nós não aprendemos muito com os anos anteriores. Com apenas 3 meses, neste ano já tivemos inúmeros casos de racismo no esporte e quanto mais as pessoas parecem lutar contra, mais esses casos se repetem.

Em 2014, tivemos um caso nas arquibancadas que hoje serve como marco na luta pelo respeito nos esportes. Talvez todos se lembrem do que aconteceu com o caso da torcedora do Grêmio que apareceu pelo Brasil inteiro em rede nacional chamando o, então goleiro da Ponte Preta, Aranha, de “macaco” repetidamente e incansávelmente. Seis anos atrás isso se tratava de um escândalo e o clube chegou até a ser punido, mas parece que depois de todo esse tempo, ainda não aprendemos com os nossos erros.

Casos de 2020

No final de 2019, terminamos o ano com o atacante italiano Mario Balotelli sendo centro de uma polêmica e comentários racistas. O presidente do clube no qual o jogador atua, Brescia, comentou sobre o preconceito que seu atleta estava sofrendo e chegou a falar que o mesmo estava “trabalhando para ficar mais branco”, mas como sempre, bastou dizer que foi uma brincadeira que nada aconteceu. Voltando para 2020, em fevereiro deste ano, Balotelli foi, mais uma vez, alvo de insultos e cânticos racistas dentro de campo. A partida em questão chegou a ficar paralisada e o jogador ameaçou sair de campo. E a tendência é que os casos não diminuam, pelo menos enquanto nós enxergarmos como algo “do futebol” ou simplesmente como “brincadeira”.

Sem punições, sanções, as torcidas seguem livres para ofenderem individualmente quem bem entenderem. Em uma partida válida pelo campeonato ucraniano também no final do ano passado, tivemos talvez o pior dos casos até então. O atacante brasileiro Taison, que atua pelo Shakhtar Donetsk sofreu dos mesmos insultos vindos da torcida que a maioria dos jogadores negros tem que vivenciar no esporte. Mas ele reagiu. Ao fazer um gol no rival, Dínamo de Kiev, ele comemorou em resposta à torcida que estava o ofendendo. O jogador mostrou o dedo do meio, foi expulso e saiu de campo coberto de lágrimas.

Taison, jogador do Shakhtar Donetsk em protesto contra insultos raciais. (Créditos: Divulgação)

Diante de uma situação tão escandalosa, houve comoção mundial, entretanto a federação fez questão de manter a suspensão do jogador e ainda por cima aplicou uma multa ao clube de Taison. Dessa vez, pior que na maioria dos casos, o agressor não só saiu impune, como a vítima ainda teve que ser punida.

Um outro caso recente, que é mais um retrato da desvalorização da luta por igualdade racial e reparação, aconteceu no dia 16 de fevereiro deste ano, em partida válida pelo campeonato Português de futebol masculino. A partida foi entre o Vitória de Guimarães e o Porto. Mais uma vez, um jogador sofreu insultos raciais por parte de uma torcida rival, Moussa Marega, do Porto, estava sendo ofendido e ao fazer um gol, comemorou em direção a torcida do Vitória, que respondeu atirando objetos, como cadeiras do estádio, em direção ao jogador. Sem mais, o atleta se recusou a continuar a partida.

Diferente do caso de Taison na Ucrânia, a federação portuguesa se prontificou a multar e punir o Vitória de guimarães. Entretanto, parecia bom demais para ser verdade. O clube sofreu uma multa de 18 mil euros, porém apenas 714 euros da multa eram direcionados aos atos de racismo. O jogador, indignado, chegou a debochar da punição que foi publicada no dia 4 de março deste ano: “Não! 714 euros é muito! Posso pagar pra eles?”, postou o atleta em sua rede social. 

Infelizmente os casos não param, e mesmo em meio a um surto de coronavírus que tem parado o esporte mundial, as pessoas acham espaço pra atitudes racistas no esporte. Em uma partida válida pelo campeonato gaúcho de futebol no dia 14 de março entre Caxias e São Luiz, o jogador Tilica, do Caxias sofreu insultos racistas da torcida rival na hora de ser substituído e o jogo chegou ficar parado com a  polícia em campo.

Casos como esses são, infelizmente muito comuns mundo afora e ainda mais comuns no Brasil, como pudemos analisar. Em dados levantados pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol, podemos ver o fato chocante de que nenhum dos caso de racismo ocorridos ano passado nos estádios gaúchos chegou a ser julgado.

 Segundo o Observatório, foram 56 casos de injúria racial e racismo nos estádios do Brasil em 2019, 14 só no Rio Grande do Sul e nenhum deles foi julgado. Entretanto, apesar de termos evidenciado o lado ruim da situação, algumas entidades já começam a buscar maiores soluções para situação. O Grêmio, clube de Porto Alegre, abriu espaço de verdade para uma discussão sobre a discriminação racial no esporte voltada diretamente para seus funcionários.

Funcionários do Grêmio em discussão sobre a discriminação racial no esporte. (Créditos: Morgana Schuh | Grêmio FBPA)

“O racismo (..) é, sobretudo, um processo histórico e político que as condições de subalternidade ou de privilégio de sujeitos racializados é estruturalmente reproduzida’’.

Silvio Almeida

Esse é um  trecho retirado da obra “O que é racismo estrutural?”, de Silvio Almeida. A partir disso, podemos entender o problema geral do esporte atualmente: ele é estruturalmente racista. A partir do momento em que entendemos como brincadeira ou normalizamos insultos e injúrias raciais no ambiente esportivo, isso só se mostra um reflexo do que construímos e temos enraizado como sociedade.

As atitudes recentes de explosão de sentimentos que os atletas negros têm tido, apenas são um reflexo da exaustão dos mesmos diante a tal situação. Enquanto buscamos a cura para doenças como o coronavírus, que parou o mundo, não conseguimos sequer nos educar e nos desconstruir para vivermos um ambiente saudável e justo para todos no esporte.

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